A Igreja de São Martinho de Mouros ergue-se num espigão que se alça sobre o curso terminal do ribeiro da Bestança, no seu caminho rumo ao Douro. Estabelecida num território facilmente defensável, dotado de encostas abruptas e notáveis maciços graníticos, esta Igreja, cuja silhueta se impõe a partir dos mais diversos pontos do vale, assume-se na paisagem da serra de Meadas de forma muito particular devido à sua original fisionomia. As primeiras notícias de ocupação espacial remontam à Época Castreja é à subsequente romanização, de cujos vestígios este território é fértil. No entanto, devemos salientar, sobretudo, já na Idade Média, a notícia da tomada do castelo pelo exército de Fernando Magno, rei de Castela (r.1035-1065) e Leão (r.1037-1065), integrando São Martinho numa importante linha defensiva duriense que incluía os castelos de Lamego e Castro de Rei (Tarouca).

 

Fonte: http://www.rotadoromanico.com

Recorde-se que foi após a tomada de Lamego, a 29 de novembro de 1057, que os exércitos cristãos de Fernando Magno tomaram os castelos de Cárquere e de São Martinho de Mouros. Esta última estrutura defensiva, de que ainda subsistem vestígios, situa-se a oeste da atual povoação, sendo com certeza herdeira do castro e onde, junto à sua cerca, se ergueu o primitivo templo cristão, dedicado ao Salvador, como tantos outros da época. A invocação é ao mesmo tempo sinal de tomada e grito de guerra, plasmado numa iconografia do Cristo, rei e justiceiro. Tomado o castelo, sacralizado o espaço, o burgo retomou a sua vida, ao longo do vale fértil do Bestança. Embora sejam parcos os dados históricos relativos à Igreja de São Martinho de Mouros, será a partir do século XIII que encontraremos as primeiras referências documentais que a ela se referem. De padroado real, conforme informação das Inquirições Gerais de 1258, a Igreja passou para outras mãos, a Casa de Marialva (século XV) e a Universidade de Coimbra (século XVI). A existência de uma inscrição, relativa ao ano de 1217, gravada na face exterior da capela-mor (lado norte, primeira fiada acima da sapata e quinto silhar a contar da direita) remete-nos para o início da construção desta Igreja ou vem memorar a conclusão de uma primeira fase construtiva, possivelmente, da cabeceira. O seu projeto inicial era arrojado, estando previstas três naves abobadadas, mas que não chegaram a ser erguidas.

 

Na Época Moderna e, sobretudo, no período barroco deu-se a modificação da sua espacialidade e da decoração sendo de destacar o retábulo-mor, em estilo nacional, com trono eucarístico sobrepujado por uma representação da Ascensão de Cristo. Os retábulos da nave, fabricados também dentro da linguagem barroca, dita nacional, são mais simples que o maior. Consagram-se os colaterais ao Senhor das Chagas e a Nossa Senhora do Rosário e o lateral (do lado direito da nave) à Senhora do Desterro. Elaboradas por volta de 1530, destacam-se duas pinturas a óleo sobre tábua na capela-mor que representam cenas da vida de um São Martinho caritativo e místico. Trata-se de trabalhos atribuídos aos Mestres de Ferreirim. Já as pinturas a fresco nas paredes colaterais da nave podem ser execuções dos últimos anos do século XV, das quais restaram as representações (hoje encobertas pelos retábulos) de São Martinho e certa figura feminina envergando um hábito beneditino. Deve-se ainda salientar a presença, nos vários altares e sobre mísulas, de peças de imaginária de boa qualidade plástica, de que destacamos São Martinho de Tours, o padroeiro.


: Av. Nené Ribeiro, lugar de Sub-Adro, freguesia de São Martinho de Mouros, concelho de Resende, distrito de Viseu.


41°06'06.7"N 7°53'55.3"W